“Não se pode ensinar o que não se sabe”

Para a especialista em educação infantil Rosely Sayão, os adultos de hoje são incapazes de enxergar e respeitar o outro – e estão formando crianças igualmente insensíveis à alteridade.

Por Leandro Quintanilha


Crianças e adolescentes tendem a repetir a inabilidade dos pais e da escola para o exercício cotidiano da empatia. Eis a tese defendida pela psicóloga e consultora educacional Rosely Sayão nesta entrevista concedida ao Studio Ideias. “O adulto não pode ensinar o que não sabe”, diz. Para ela, os mesmos comportamentos que pais e professores criticam nos menores, como o desrespeito e a falta de cooperação, também são características marcantes dos adultos contemporâneos.

Crianças e adolescentes podem ser erroneamente taxados como agressivos ou provocadores – quando não precipitadamente diagnosticados com Transtorno Desafiador Opositivo – apenas por expressar posturas típicas da cultura vigente, quando não da idade. Para Rosely, os momentos de confronto ou de desencontro são oportunidades para o cultivo da empatia, uma sensibilidade que só se consolida verdadeiramente com o tempo e o exemplo.


A senhora acha que as famílias de hoje têm cultivado a empatia em suas crianças?

Não, os pais não têm se atentado a isso. O adulto não pode ensinar o que não sabe. Nós estamos muito longe de nos colocar no lugar do outro, para tentar enxergar o mundo de um modo diferente. Hoje, as crianças só recebem comandos. Os adultos administram a vida delas.

Fazem a agenda, levam de um compromisso a outro, conferem o rendimento escolar, ajudam nos trabalhos… As atitudes em si e a empatia ficam em segundo plano em nome dessa obsessão de busca pelo sucesso que se tem. A relação entre pais e filhos ficou muito burocrática.

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Mas, afinal, o que é empatia?

Recentemente, foi aberto o Museu da Empatia (Empathy Museum), em Londres. “In your shoes” (“nos seus sapatos”) é uma expressão em inglês significa se colocar no lugar de alguém. Quando os visitantes chegam, são orientados a calçar sapatos usados, disponíveis ali. Cada par de calçados têm um áudio correspondente, em que o antigo dono relata uma situação que viveu. Empatia é isso, é a capacidade de se colocar no lugar do outro.

O bullying é uma prática relativamente comum entre crianças e adolescentes. Seria um reflexo dessa falta de reconhecimento do outro e de respeito por ele?

Eu não sei se as crianças têm condições de ter empatia desde cedo. O que elas podem é começar a aprender o que significa isso. E essa aprendizagem é um processo longo, que exige vivências.

Como essa sensibilidade pode ser cultivada no cotidiano?

Com criança muito pequena, não adianta mesmo. Ela ainda se vê como o centro do mundo. Mas, a partir dos 6 ou 7 anos, isso pode ser estimulado. Peguemos como exemplo o caso noticiado da menina que ouviu de colegas de uma escola particular que tinha “cabelo de pobre”. É preciso conversar com essas crianças para estimular cada uma a imaginar como seria se fosse ela a vítima daquele comentário. E se falassem que a sua pele é branca demais? E se alguém dissesse que a sua pele não serve para se viver em uma cidade como o Rio de Janeiro? A empatia deve ser cultivada nas crianças sem que se espere resultados imediatos. É preciso insistir, perseverar. Mesmo na adolescência, porque é uma fase em que se recusa tudo o que foi aprendido em casa. Os pais precisam ser persistentes.

Uma criança que passou por períodos de sofrimento intenso pode se tornar mais sensível à dor do outro?

Não conheço nenhum estudo que aponte isso. O sofrimento por si só pode provocar diversas formas de comportamento na vida adulta, inclusive a completa falta de empatia. Algo como “eu já sofri bastante – os outros é que se virem!”.

Nós, brasileiros, somos um povo empático?

De modo algum. Em geral, a gente só sabe criticar e julgar. Dificilmente, nós nos colocamos em uma posição de tentar compreender o que é diferente. Vivemos neste momento um clima de comunicação muito violenta entre as diferenças, sejam elas quais forem. As crianças que disseram que a colega tinha cabelo de pobre aprenderam isso com alguém – e foi conosco, os adultos. Nós não toleramos a diferença e enxergamos como democracia apenas o que queremos que seja. A ideia de que o brasileiro é empático não se sustenta, assim como tem caído por terra o conceito de que somos um povo cordial. Somos agressivos.

A impessoalidade da internet pode favorecer essa hostilidade?

Quando a internet surgiu, eu pensava exatamente assim. Mas fui percebendo que esse fenômeno saiu da virtualidade. Hoje, essa grosseria se manifesta também no comportamento pessoal. Não sei se essa tendência já estava latente no brasileiro e só precisava de um veículo para se expandir ou mesmo se isso sempre existiu e apenas não havia comunicação suficiente para que percebêssemos o padrão social.  Não dá para se ter certezas – estamos no campo das hipóteses.

O modelo de escola que temos hoje também não é empático, é?

Mas de jeito nenhum! A escola só se preocupa consigo mesma. Só quer resultados, aprovar seus alunos no vestibular. Os estudantes ficam completamente passivos nesse contexto, não participam das decisões sobre a vida escolar, que são decisões sobre as suas próprias vidas. Mesmo em questões simples, como os uniformes que devem usar, ninguém ouve os alunos. Entenda que ouvir é diferente de acatar. E quem ouve começa a exercitar a empatia. Quando dois colegas brigam, os adultos precisam escutá-los em vez simplesmente de puni-los, para entender o ponto de vista de cada um. A escola não é empática porque acha que sabe tudo a respeito das crianças e dos adolescentes sem ouvi-los. Uma pesquisa apontou que professores generalistas faziam com que os alunos aprendessem mais do que professores especialistas. Por exemplo, o profissional generalista também sente estranhamento diante da matemática e, assim, pode se identificar com o aluno. Um especialista, por sua vez, pode encarar aquele conteúdo como algo fácil demais.

Se a família e a escola falham, os amigos podem ser uma fonte mais promissora de empatia?

Como são esses amigos? São iguais a mim? Se houver contato com diferentes, não apenas com semelhantes, sim, pode haver um estímulo maior à empatia. Estamos hoje no mundo da diversidade, mas as pessoas continuam a rejeitar a diferença. A gente pensa que vive melhor entre iguais. Perceba que hoje não há relações intergeracionais – crianças convivem com crianças, jovens com jovens, velhos com velhos. A amizade é uma escolha afetiva muito importante, porque os amigos nos ajudam a viver melhor. A gente não sabe completamente porque escolhe ou não alguém para amigo. O problema de certas amizades é que podem se abalar com as primeiras diferenças que vêm à tona. Um sinal de que falta empatia.
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As redes sociais nos aproximam das pessoas com quem compartilhamos afinidades e com quem tendemos a concordar. Isso pode favorecer a formação de bolhas sociais?

Vivemos hoje em pequenas tribos. Um amigo costuma dizer que as redes sociais montam um monte de clubes com 300 pessoas cada. Por causa do meu trabalho, sempre converso presencialmente com grupos, maiores ou menores. Gosto de chegar antes do horário marcado, para observar. As pessoas chegam e reservam as cadeiras ao lado, distantes de outras panelinhas que vão se formando. Quando a gente usa o transporte coletivo, também nos sentamos distantes um dos outros sempre que possível. Por outro lado, sentar-se ao lado não significa invadir o espaço do outro. Outro dia quase caí de uma escada rolante porque fui empurrada por alguém que queria passar. Também ouvi de uma pessoa recentemente que ela se sentia invisível, porque estava olhando uma vitrine e um passante parou na frente dela para ver os mesmos produtos. Invadir o espaço do outro é ignorá-lo. Ou seja, é o oposto da empatia.


Reprodução

Rosely Sayão é psicóloga formada pela PUC de Campinas e presta atendimento clínico há mais de 30 anos. É consultora em educação de crianças e adolescentes e colunista da Folha de S. Paulo e da Band News FM.

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