“A política virou showbusiness para pessoas feias”

Facundo Guerra e o centro de São Paulo, lugar que conferiu identidade brasileira a esse argentino radicado no Brasil desde os 4 anos. Foto: Felipe Morozini

Facundo Guerra e o centro de São Paulo, lugar que conferiu identidade brasileira a esse argentino radicado no Brasil desde os 4 anos. Foto: Felipe Morozini

Ele é doutor em ciências políticas, mas não vota – pela razão expressa no título acima. É elogiado por instalar casas noturnas de sucesso em prédios que muita gente considerava abandonados, mas se recusa ao papel de benfeitor da cidade. Facundo Guerra, o conhecido empresário da noite paulistana (Vegas, Riviera, Cine Jóia, Lions, a lista é longa) é um cara que pensa, pensa, pensa, pensa muito. E como todo bom pensador, entra em discordância consigo mesmo e com os interlocutores (afinal, pensar é percurso, não é linha de chegada). Foram quase duas horas de uma conversa cheia de perguntas e frases corajosas por seu potencial de polêmica. Prova de que o papo foi bom! A seguir, os melhores momentos.

Por Camila Holpert e Sandra Soares

Camila: Na sua opinião, por que hoje o diálogo e o debate de ideias é tão difícil? Por que há tanto embate onde deveria haver debate?

Facundo: Mas será que existe mesmo falta de debate? Se você considerar a época pré-internet, quando os debates aconteciam em centros acadêmicos, nas mesas de bar… Será que existe menos debate agora? Ou, pelo contrário, será que na verdade existe tanto debate agora que a gente não consegue mais captar as posições? Pecamos pelo excesso ou pela falta?

Sandra: Talvez a questão não seja mesmo a quantidade, mas a qualidade no debate. Porque onde deveria haver diálogo só se ouve monólogos. Fico pensando se não é assim porque a internet deu voz a vozes que antes poderiam ter algum constrangimento em se manifestar. Os racistas, por exemplo, poderiam se sentir constrangidos de manifestar seu preconceito em público porque as vozes oficiais (o governo, a mídia) condenam o racismo. E publicamente, numa escala capaz de reverberar, só existiam as vozes oficiais. Hoje essas pessoas que pensam igual se encontram na internet e se sentem encorajadas a falar das coisas mais absurdas.

Facundo: Será que existe mais racismo hoje ou será que as denúncias chegam até nós com mais velocidade? Eu acho que somos menos racistas.

Camila: Podemos listar aqui tantas situações recentes de preconceito… Nos dê então um exemplo na direção contrária: de que temos menos preconceito.

Facundo: Até 10 anos atrás os prédios ainda tinham elevador de empregada. Hoje seria impensável. Será que a nossa intolerância às manifestações de exclusão, não só de racismo quanto de tantas outras, não ficou maior? E por isso qualquer manifestação nesse sentido reverbera mais em nós? Acho que cada vez temos menos racismo, menos homofobia, menos machismo. As pessoas condenam mais o próprio preconceito. Falo por mim:

Eu nasci e cresci na Argentina e lá quase não tem negros. Então quando uma pessoa negra vem conversar comigo, a minha capacidade lógica precisa entrar em cena e me defender do protofascista que mora dentro de mim. Existe este sentimento de estranhamento ao negro em mim e é assim porque fui aculturado dessa maneira. A verdade é que quando eu vejo um negro, no meu cérebro mais primitivo, quase de réptil, alguma coisa se arma instintivamente e eu preciso desarmá-la via lógica, razão, discurso para então ver o negro como igual.

Hoje eu consigo controlar isso, mas tantas pessoas ainda não conseguem… Pelo menos essas pessoas não manifestam mais seu preconceito, porque o condenam. E aqueles poucos que manifestam estão atrás da polêmica.

Camila: Seguindo o seu ponto… Pensar dessa maneira em relação ao machismo, à homofobia, ao racismo talvez seja mais evidente do que pensar assim a política. Enquanto a discussão está no campo da defesa de que o ser humano seja considerado enquanto igual – não importa sua cor, sexo ou opção sexual – cabe o que você falou. Mas e no campo político? Por que não conseguimos conversar sobre política?

Facundo: Porque a política virou showbusiness para pessoas feias.

Sandra: [risos] Como assim?

Facundo: Se você fala com qualquer pessoa sobre política, ela vai dizer que somos nós contra eles – os políticos – e que ela fez sua parte no voto.

A política é aquilo que acontece lá em Brasília e se resume ao exercício da democracia na hora do voto, no político que manda na gente e que rouba e dilapida o estado. As coisas só terão alguma chance de mudar quando a sociedade entender que a política em si não existe. Ela se exerce na relação.

As pessoas não se veem como seres políticos… E a discussão que praticam hoje se resume a uma guerra entre uma esquerda corrupta e uma direita fascista, os dois lados fazendo o tempo todo tentativas de aniquilamento do outro. Disso eu não quero participar. Por isso eu já nem voto mais. Sou absenteísta.

Camila: Você tem um doutorado em ciência política e não vota mais?

Facundo: A minha alienação não é passiva, é ativa. Não é que eu não tenha interesse, pelo contrário: eu tenho muito interesse, mas do showbusiness não quero fazer parte. Eu optei como estratégia me alienar. Não leio mais revistas, nem jornais, me desinteressei do mundo. Só estou interessado no microcosmo que eu construí para mim. No meu e no dos meus. Acredito mais na micropolítica.

Sandra: Viver num microcosmo não é muito solitário?

Facundo: Mas esse microcosmo tem uma membrana permeável aos outros… Não quer dizer que eu não cumprimente os vizinhos ou não possa ir a lugares longe da minha zona de conforto. Eu apenas não estou mais preocupado com o mundo. O mundo é um lugar muito grande. Estou preocupado com o que está em torno de mim. Micropolítica, microterritório, micro-relações.

Camila: Neste sentido você tem uma atuação política muito forte. O seu trabalho de recuperação de espaços públicos…

Facundo: Recuperação?! Eu não trabalho para recuperar nada. Não sou poder público, sou empresário. De novo: meu trabalho não é recuperar nada.

Sandra: Ah, mas o seu trabalho acaba tendo esse efeito colateral…

Facundo: Tem um efeito colateral porque essa coisa da recuperação é um tema para mim. Mas não é uma missão.

Quando falam “ah, você está revitalizando a cidade…” eu digo “não estou, estou é vendendo álcool”.

Tem uma preocupação minha, pessoal, vulgar, de preservar o centro. Porque quando vim para o Brasil, com 4 anos de idade, eu logo percebi que não me encaixava, não me sentia brasileiro. Nunca gostei de samba, futebol, desses grandes arquétipos. Eu só me encaixei, só me achei, como paulistano do centro. Essa é a minha identidade.

Camila: E por isso você batalha para preservar o centro.

Facundo: Se eu encontrar por lá um lugar em que eu não possa vender álcool, não vou fazer nada com ele. Não sou e não posso ser salvador de nada e nem quero essa responsabilidade para mim. A minha preocupação não é política, é estética. Se as pessoas quiserem se apropriar disso de outra maneira, tudo bem, isso é com elas. Mas seria cínico da minha parte aceitar esse papel de benfeitor. Além do mais eu acho meio facistóide falar de revitalização de espaços públicos.

Camila: Por que?

Facundo: Vamos pensar no Cine Jóia, que era um templo da igreja Pentecostal. Porque a maioria dos evangélicos vem da periferia, a gente fala que aquele espaço não tinha valor, precisava ser revitalizado. Ou seja,

nós da elite achamos que se a gente voltar a frequentar um espaço aí sim ele terá vida.

A mesma coisa em relação ao Vegas. Quando cheguei lá, a Augusta era frequentada por putas, traficantes e gente da periferia em busca de diversão barata e daí se dizia “a Augusta está abandonada”. Chega o Vegas em 2005, a elite branca começa a frequentar e começa a se falar em revitalização da rua Augusta.

Sandra: Pensar melhor a cidade, cuidar do espaço urbano não é uma maneira de criar uma noção de coletivo?

Facundo: Me dá um exemplo?

Sandra: Barcelona é uma cidade projetada segundo um olhar urbanístico que preza o coletivo. Lá o poder público trabalha para evitar, ou pelo menos minimizar, a divisão do espaço em áreas de elite e áreas de periferia. Quando um lugar começa a se degradar se planta ali um centro cultural importante e dessa forma se promove mais convivência entre diferentes classes nos bairros.

Facundo: Ah, o mito do centro cultural! A gente tem um dos melhores aparelhos culturais do Brasil, que é a Sala São Paulo. Olha o que acontece no entorno? A 100 metros da sala São Paulo você tem a cracolândia. Você estabelece esse vínculo do aparelho cultural e a elite vai de carro, acessa e sai de carro com vidro fumê.

Camila: Mas a longo prazo não poderia funcionar aqui também? Com mais investimento, mais projetos? É preciso fazer alguma coisa… Barcelona foi projetada assim, São Paulo não…

Facundo: Na Europa a maior parte da população é classe média, então você tem um grosso da população que está acima da linha da miséria. Aqui não, a gente tem um apartheid entre a periferia e o centro. E cada zona tem o seu apartheid, a zona sul tem suas favelas, a zona oeste tem suas favelas. Então a gente tem uma ideia de cidade muito abstrata. Esta cidade a qual a gente se refere, São Paulo, ela não existe.

Sandra: Mas há tantos projetos legais surgindo… Projetos que estimulam a convivência. Ocupação do Minhocão nos fins de semana, preservação do Parque Augusta… Você não vê qualidade neles?

Facundo:

Eu acho este discurso do parque Augusta e do parque Minhocão muito louvável, mas é um discurso de elite, sempre. Vai lá no Minhocão no domingo… Você vê forró? Vê samba? Vê axé? Vê pagode? Não! Você vê música eletrônica…

Sandra: Você vê gente fazendo yoga.

Facundo: Pois é! Você está no centro, na zona oeste. O Mirante da Nove de Julho é público… Um cara que vem da zona sul, da Ermelino Matarazzo, pode entrar? Pode! Ele vai se sentir bem? Não, porque não é pra ele. Por que? Eles não querem conviver conosco e nós não queremos conviver com eles. Você quer conviver com a diferença? Pode ir pro Jardim Japão. Quem daqui vai pro Jardim Japão? Alguém vai pro parque do Carmo? Promover a diversidade é uma mentira… Todo mundo quer que a periferia visite o centro… Estou falando dos progressistas, tá? Conservadores querem a periferia lá longe, por eles construiríamos um muro. Todos querem que a periferia venha nos visitar no centro, mas que ela se adapte ao nosso modo de vida. A periferia tem que entrar em contato com a música clássica, com a música eletrônica de qualidade, com o teatro de qualidade. Ela tem que consumir os produtos culturais que nós, como elite, legitimamos como alta cultura. Mas ninguém quer ir lá bater uma bola, comer um churrasquinho na laje, bater um sambinha, dançar um funkzinho, trepar no muro, se miscigenar, não, não. Não tem essa.

Camila: Mas o centro é um lugar mais miscigenado.

Facundo: De novo: será? Outro dia eu estava correndo pelo centro e vi o Municipal pichado. Pichado mesmo, com um tag. Eu tava passando e vi uma mulher comentando “nossa, é um absurdo pichar o Municipal, que tipo de gente, que bárbaros que picharam o Municipal”. Por que que picharam o Municipal? Para pra pensar. Porque aquele Municipal não fala com a periferia. Aquilo ali é uma expressão da elite. A gente ama o grafite mas o piche não, ele está no campo da depredação porque o piche é uma expressão de periferia.

O grafite é branco o piche é negro. Enquanto existir uma periferia invisível que quer se manifestar, que quer existir, ela tagueia o Municipal por uma questão de existência. A gente finge que esta periferia não existe há 50 anos. Então eu consigo ter um pouco de empatia e entender que o Municipal deveria ser completamente pichado, de alto a baixo. Pra gente aprender a olhar, ainda que seja pelo viés negativo, para esta periferia invisível.

Sandra: Mas como podemos estabelecer a empatia sem precisar pichar o Municipal?

Facundo: Agora, nesta altura do campeonato, impossível! Não adianta falar de empatia sem mexer no que realmente importa que é a distribuição da riqueza. Sem mexer nos impostos dos milionários, nos lucros dos bancos, não dá. Rico deveria pagar 70% de imposto e eu estou incluído entre eles. Ou então vai cuidar de infraestrutura, sei lá. Não é promovendo bens culturais, porque o que nós projetamos como bens culturais, a franja não reconhece, não adere. Se você quer promover o debate, a empatia, vai distribuir riqueza. E eu não estou falando de riqueza via consumo, não estou falando de distribuir Iphone e sim de hospital, rango, escola, oportunidade… Quer distribuir meritocracia, que é o que todo belo capitalista usa pra justificar a maneira como o mundo está arranjado, eu acho ótimo… Mas dá o mesmo ponto de partida para todo mundo, aí vem falar de meritocracia, senão não.

Camila: Até aqui falamos da falta de empatia entre diferentes… Mas o que dizer da falta de empatia entre iguais? Dentro da elite tem uma guerra, uma falta de empatia também. A direita e a esquerda…

Facundo: Direita e esquerda querem ambas Iphone e viagem para Miami, a gente só de digladia no campo das ideias. É só uma alternância de poder, a elite vai ser sempre a mesma, não importa se é de direita ou de esquerda. Todos os meus amigos são humanistas. Todos. Todos eles querem salvar o mundo. A gente quer mudança, “mas não mexe aqui no meu”. E este é o maior conservadorismo que existe: pedir a mudança, clamar por ela, mas “não passa ciclovia na minha rua”. O que eu estou ouvindo de absurdo por causa das ciclovias, ouvi ontem de um taxista “este prefeito deveria tomar uma bala na cabeça”. A pressão da panela está aumentando, com esta crise então…

Camila: Como você vê esta crise?

Facundo: O que eu acho que está acontecendo é que o próprio capitalismo está numa crise profunda. A lógica dele é uma lógica de consumo de hospedeiro. É muito fácil trabalhar em grandes corporações porque a regra é clara: tudo passa pela lógica do lucro.

Alguém já chegou para você e falou “ano que vem a gente está contente se vender menos”? Qualquer planejamento para cinco anos é uma curva ascendente que tende ao infinito. Onde você vai ter isso? Onde? Esse crescimento só é possível ou cortando despesa ou faturando mais, com os custos controlados… Esta lógica não é sustentável, ela já entrou em curto-circuito e as pessoas estão perdendo seus empregos.

Acho que no final das contas essa pressão vai aumentar ainda mais. E, pra mim, estamos reagindo fazendo só cortina de fumaça.

Sandra: Como assim?

Facundo: Discussão urbanística é um exemplo de cortina de fumaça. A gente está tentando aliviar a nossa consciência e está tomando analgésico, a gente não está atacando a causa do problema que é uma puta distribuição de riqueza desigual. Eu sou comunista por causa disso? Não, eu sou conservador.

Camila: Conservador?

Sandra: Sim, porque eu quero conservar o sistema. Porque se eu não pensar em distribuir a riqueza de uma maneira mais equânime o sistema vai falhar.

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