“Quem não consegue conviver com as diferenças não é democrático”

ale_porjorgebispo.jpg

Alê Youssef em clique do fotógrafo Jorge Bispo

Em seus 41 anos, Alexandre Youssef tem entrelaçado sua vida e seu pensamento à vida de uma cidade: São Paulo, onde nasceu. Alê foi coordenador de Juventude da Prefeitura de São Paulo (2001/2004), criou e dirigiu a casa de shows Studio SP (2005/2013) e em 2009 fundou com amigos o Bloco carnavalesco Acadêmicos do Baixo Augusta, o maior da cidade. Hoje apresentador do programa Navegador, da Globonews, comentarista e colaborador do Esquenta, da Rede Globo, e colunista político da revista Trip, ele se divide entre São Paulo e Rio, onde também cursa um mestrado na UFRJ que pretende analisar iniciativas inovadoras de modos de fazer política no mundo. Todas as atuações desse realizador (produtor cultural, empresário, apresentador, colunista) têm em comum uma espécie de “veia cidadã”, uma preocupação política. “Mesmo que você tente se manter à margem da política, estará nela. A vida em sociedade é pura política”, diz Alê, que defende uma maior participação das pessoas na vida partidária como forma de garantir um melhor futuro para o país. Na entrevista a seguir, debatemos o fla-flu de opiniões que marca esse momento da história do Brasil:

Sandra: O diálogo entre as pessoas, seja no ambiente virtual ou no real, está cada vez mais difícil. Vemos muito mais monólogos inflamados do que debates e as opiniões tendem a ser inflexíveis e radicais. Na sua opinião, por que chegamos a essa situação?

Alê: Para mim a radicalização tem a ver principalmente com o esgotamento de determinados movimentos políticos. O problema é que ainda não vemos alternativas reais para a esse vácuo criado pelo esgotamento. O desgaste dos modelos políticos leva à despolitização das pessoas, que leva à ojeriza da política, que leva à falta de participação, e isso tudo leva a um ambiente de fla-flu em que nenhum dos lados tem razão. E esse fla-flu, esse tiroteio, olha mais para o passado do que para o futuro.

Camila: Diante disso, como garantir a construção de um futuro realmente mais democrático?

Alê: A solução passa pela conscientização das pessoas de que elas têm de fazer política. Não basta fazer denúncias, não basta fazer ONGs, é preciso participar da política de verdade. Mais pessoas precisam ir além da fala e se candidatar a cargos públicos. As coisas não vão realmente mudar enquanto não houver alternativa política real, no âmbito partidário. Do ponto de vista prático, a gente só vai conseguir reformar a democracia com reforma política, com pessoas povoando o congresso nacional que tenham isso na cabeça. Sem gente eleita para fazer passar a reforma, tudo vai continuar igual.

Sandra: Temos a tese de que a internet, que deveria ser uma promotora da democracia, colaborou muito para a polarização dos discursos… Você concorda com isso?

Alê: Hoje a internet esta fragmentada em condomínios. Nas redes sociais, você só convive com gente do seu condomínio, com os mesmos gostos e hábitos. Então a ideia original e revolucionária da internet, que é a de colocar as pessoas em contato com tudo o que acontece no mundo, foi desvirtuada. Fazendo um paralelo com o conceito de cidade, na internet você não está na praça, não está vendo a diversificação das coisas, está de alguma forma alheio ao que ocorre na rua. A evolução da web para o mobile gerou atalhos – os aplicativos – pelo quais você chega no condomínio sem nem passar pela cidade.

Sandra: Quando se depara, lá no seu condomínio das redes sociais, com alguém muito aguerrido, radical, bélico, como você reage?

Alê: Não respondo, ignoro. O Facebook está viciado, não é representativo… Eu não vejo sentido em ficar ali disputando, acho que a gente tem que fazer coisas maiores, gastar tempo com outras coisas. Sabe aquela música do Raul Seixas que diz “convence as paredes do quarto e dorme tranquilo sabendo que no fundo do peito que não era nada daquilo”? Eu odeio esta situação.

Camila: Você fala da necessidade de maior envolvimento das pessoas com a política… Que outras formas válidas de participação tem visto por aí que não a de se candidatar ou criar um partido?

Alê: É importante apontar quem faz o quê no mundo político e tangibilizar as ações. Tem mil entidades que estão nessa onda de fiscalizar e qualificar a atuação dos políticos e já estão ajudando para que os bons políticos sejam valorizados em detrimento dos maus. Vale dar também o exemplo de São Paulo que, particularmente, está vivendo um momento muito especial na área de empreendedorismo social. Estamos numa situação tão despolitizada que quem faz empreendedorismo social está fazendo uma super política!

Sandra: Eu tenho a impressão de que as pessoas estão mais interessadas pela política, ainda que pela via da radicalização.

Alê: Será que existe uma politização ou na verdade o que existe é um grande movimento de ódio que vai atraindo mais e mais gente? Até que ponto as manifestações públicas representam uma tentativa de modificação política ou são simplesmente uma coisa do contra? Não dá pra saber ainda, eu acho. São Paulo, por exemplo, vive uma guerra fria. Quantos por cento tem de aprovação o Haddad? 18%. Mas quantas pessoas batem no peito e falam “legal esta mudança que o prefeito propõe”? Muitas. Que cidade é esta em que o ciclista é xingado e ao mesmo tempo as pessoas compartilham a matéria positiva, publicada pelo New York Times, dizendo que o Haddad é um prefeito à frente do seu tempo? Os manifestantes tendem a se apegar aos símbolos da elite mais conservadora. Ou seja, não é na ocupação da rua que esse espírito mais visionário se manifesta.

Sandra: O nosso projeto se chama Massa Cinzenta justamente porque nos propomos a tentar reunir as pessoas que não se identificam com a polarização, que não acreditam que o mundo é preto ou branco. Percebemos que a massa que se identifica com o que chamamos de cinza não é organizada.


Alê: Sabe por que essas pessoas não se encontram? Porque estão cheias de questões em relação à política e acabam replicando o fazer política de quatro em quatro anos, na hora do voto. Se elas despertarem para uma possibilidade de construção coletiva no interim entre uma eleição e outra, essa massa crítica irá crescer. Muita gente gosta de repetir que política não é só o processo eleitoral, mas age como se fosse.

Sandra: As pessoas repetem muito esta ideia de que o poder corrompe. Você concorda com isso?

Alê: Se a gente continuar na distribuição do estado para conseguir maioria parlamentar, se continuar com este tipo de financiamento eleitoral empresarial, está feita a merda, né? Não é a política que corrompe e sim o sistema brasileiro de financiamento de campanha com capital privado. São pouquíssimos os candidatos que rompem com isso.  Só a Rede e o PSOL têm nos seus estatutos a proibição de arrecadação empresarial. É fácil de entender: tem arrecadação empresarial? Não vote! Tem de ser assim enquanto o sistema não muda.

Camila: Vemos, para além da discussão política partidária, um discurso de ódio que se manifesta não só na internet, mas também na rua. A menina que é do candomblé e que foi apedrejada, o homossexual que nós, como sociedade, massacramos… Enfim: por que a diferença não pode existir em nenhuma instância social?

Alê: Porque existe uma parcela da sociedade que é altamente influenciada por correntes, sejam religiosas ou de ódio, que manipulam a população em nome da disputa de poder. A classe média que emergiu desta transformação importante e histórica que o Brasil viveu, em que 40 milhões saíram da linha de pobreza, emergiu através do consumo. A parte que emergiu também por meio do acesso às universidades é uma minoria. Então, toda essa transformação não criou cidadania. Mas apesar de ser essa a realidade, não podemos cair na armadilha do “nós” versus “eles”. A ideia de coletividade precisa incluir a todos, inclusive aos evangélicos e às pessoas que viveram nesses últimos anos esse crescimento social baseado no consumo. Construir um futuro melhor passa pela construção de pontes com este universo gigantesco que compõe a base do eleitorado. E a ponte principal é um amplo processo educacional.

Sandra: A questão educacional é importantíssima, mas leva tempo até que os resultados apareçam. Num cenário mais imediato, o que pode ser feito para desatar esse nó?

Alê: Este é um nó muito difícil de desatar, dificílimo, porque a nova classe média agora está puta da vida porque não consegue mais consumir da maneira como consumia antes. Ela cobra medidas e vira até oposição. Os índices do governo federal estão aí pra mostrar isto, o que antes era um ativo político grande, em pouco tempo virou oposição, porque a nova classe média não quer parar de consumir. Os representantes políticos da nova classe média são os velhos coronéis de sempre, com o mesmo discurso de sempre.

Camila: A falta de educação parece estar generalizada, não acha? E estou falando também da educação mais comezinha, dos bons modos e do respeito ao outro.

Alê:  Se hoje em dia as pessoas têm mais facilidade para demonstrar seu preconceito, por outro lado, existe mais vergonha também. Em relação às expressões de preconceito, acho que o mundo hoje se choca mais.

Camila: neste sentido temos um avanço, não?

Alê: eu acho que sim, o fato de termos uma massa crítica contrária ao preconceito é um avanço. Acho também apocalíptico demais ficar achando que só hoje em dia é assim ou que as coisas pioraram. Movimentos humanistas sempre foram minoritários na história. Há quanto tempo tem conflito em Israel?! Eu me lembro de quando militava pelo PT, na infância, de ir a manifestações a favor da Palestina. Continua a mesma coisa, não muda nada lá.

Sandra: Falando em PT… Você foi ligado ao partido durante anos. Você se sente de luto diante de tudo o que aconteceu?

Alê: Eu não estou de luto porque saí do PT logo depois do mensalão, com a Marina. Então o luto já foi feito. Mas sinto uma tristeza profunda quando penso no legado do partido. Claro que existe um legado importante de inclusão social. Óbvio. Esse sempre vai ser um patrimônio do PT, ou do que sobrar dele, mas o mais cruel não é isso. O PT tinha o monopólio do sonho… E eu sonhei, como muitas pessoas. A grande cicatriz, para mim, é o fato de que a manutenção do poder a todo custo afastou as novas gerações que tinham o sonho da política. Essas gerações se afastaram não apenas do PT, mas da política, porque o desânimo e a frustação são gigantescos. Tem gente fazendo política de outra forma, as vezes em ONGs, projetos sociais e tal, mas sempre fora da cena partidária. São pessoas que poderiam oxigenar a política, trazer novas ideias… Os mesmos caras se mantêm nas mesmas ilhas de poder há anos e anos! Ficaram só os filhos dos políticos. Você pega a bancada de parlamentares jovens e vê que são todos filhos de alguém. Precisamos de oxigenação!

Camila: você acredita num novo poder? A ideia de poder pode ser revista?

Alê: Que pergunta, hein? Acho que tem coisas que precisam claramente ser revistas… Por exemplo, deveria ser regra a impossibilidade de fazer coligações que não tenham nada a ver com a sua ideologia, certo? Porque não dá pra pregar honestidade parlamentar em alianças com o Maluf, com o PMDB. Não dá. Ponto. Para desenhar um novo modelo de poder também seria importante construir uma força política capaz de disputar em condições iguais. Do jeito que as coisas são o jogo já começa quatro a zero para o adversário. Mesmo assim é preciso não desistir, é preciso jogar, porque o que está em jogo é o país.

Sandra: O que te move a não desistir da política?

Alê: Não sei… Acho que tem uma vocação em mim. Vivo um constante reencontro com algo que começou lá atrás, com o Betinho, quando eu trabalhava na ação da cidadania, arrecadando alimentos para as pessoas. Quando o Betinho me falou “vai fazer política, o que nós fazemos aqui é assistencialismo, é importante, mas é a política que vai poder mudar as coisas” uma chavinha virou em mim. Daí fui fazer política estudantil e me joguei nesse processo, né? Por mais que ao longo do tempo eu tenha feito um monte de coisas diferentes, tudo tem sempre um fundo político, uma coisa mais ativista. O Navegador é um programa que fala muito sobre política, e o Esquenta, que aos olhos rasos é uma festa de samba e funk, é aos olhos profundos uma das maiores democratizações da cultura popular na TV. Não desisto da política porque não existe a revolução do eu sozinho, não existe “volta ditadura”, existe o processo de democracia que é assim mesmo, de conviver com as diferenças.

 

 

 

 

 

Responder a “Quem não consegue conviver com as diferenças não é democrático”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s